Atraso, uma doença moderna
O escritor Lewis Caroll teria de mudar um pouco a história de Alice, caso a tivesse ocorrido em 2010. Entre todas as maravilhas existentes no país comandado pela Rainha de Copas, claramente haveria celulares. Nesse caso, mesmo com o temor do atraso, o Coelho Branco teria enviado uma mensagem de texto justificando que, depois de entrar na toca, não demoraria a chegar ao compromisso e também não entraria em parafuso, pois teria a certeza de que avisou, antes da hora marcada, que iria se atrasar.
As justificativas para o atraso ainda são muitas e, muitas vezes, compreensíveis. Trânsito intenso, chefe que pede hora extra, fila no banco ou flho que demora demais na escola. Entretanto, com as facilidades de se comunicar, não há mais tanto constrangimento em ser reconhecido como atrasado. Isso porque o excesso de tarefas da vida moderna e o conforto trazido pela transmissão rápida da informação responderiam por aqueles minutos fora da hora certa.
E-mails, celulares, mensagens de texto e outros recursos tornam-se aliados essenciais para que algumas pessoas sintam-se menos culpadas pelo chá de cadeira que dão naqueles com quem marcaram um compromisso. Assim, 15 minutos tornam-se uma hora, acompanhada por contínuas ligações que garantem: chego daqui a outros 15 minutos.
- O atraso é uma doença moderna, como a obesidade e a depressão. Ela surgiu na sociedade da informação - afirma Marcelo Zuffo, professor da USP. Para o especialista, os diversos meios de se produzir informações reduzem o tempo de propagação das mesmas. Isso cria a impressão de que os compromissos que surgem ao longo do dia devem ser resolvidos imediatamente, em detrimento daqueles que estavam previamente marcados. - As pessoas são estimuladas o tempo todo com vários sensores, principalmente os domínios visuais, auditivos e táteis, como o vibracall do celular. Com isso, elas vão absorvendo essas interrupções no cotidiano e não conseguem administrar o tempo.
Fonte: Zero Hora
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